27/08/09

Qué hacer?


Queimar as fotografias de viagem. Arrancar deste mundo as marcas dos sonhos que já tive. Ah! Mil vezes a voracidade do fogo à poeira resignada. Em volta das chamas derramarei lágrimas de uma vingança estéril auto-infligida. Dedicar os sonhos à noite, somente à noite.


Parar! Parar de fotografar sonhos, parar de inventar sonhos à custa do sono forçado da razão, parar de ofender-me com a idéia (falsa idéia) de liberdade, parar de viajar sozinha em um mundo que me repele, parar de emprestar intensidade a tudo, ao que não merece, nada merece. Parar com a ânsia de agarrar o momento, parar com tudo, caminhar em descompasso com a alma, em compasso com a engrenagem, apressada com o nada, ser nada.


Permitir! Permitir que o hábito anestesie a dor e a pungência de ver tudo, de sentir o estremecer de cada coisa tocada, de cada coisa vista, ouvida, despedaçar essa tensa corda de violino. Basta permitir. Permitir ser engolida pela inclemência das horas, pelas novidades tediosas que fazem o tempo correr desenfreado, não debochar do tempo, comprar calendários, sublinhá-los, comprar uma agenda, programar, agendar a vida, cravar um relógio no pulso, marcar o tempo, cifrá-lo, respeitá-lo.


Mutação! “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua casa metamorfoseado num inseto monstruoso”. Perder a humanidade para se tornar mais humana, ser parte da histeria coletiva. Recortar o excesso de personalidade, amoldar-se, estranhar-se, aviltar-se, desencantar-se, livrar-se da alucinada lucidez, transformar-se em monstro para obedecer cegamente à insistência da vida.


Sim! É isso. Agora, entendo. Agora, admito.


Bah! Pensando bem, fazer tudo isso daria um puta trabalho.


14/02/09

Cerro Rico, Potosí, Bolívia

Cerro de Sangre


Bolívia, 1462. O imperador inca, Huayana Cápac, fica deslumbrado ao observar o monte chamado pelos aymarás de Sumaj Orcko (Cerro Rico, Morro Majestoso). Imediatamente, ordena a seus escravos que explorem a montanha. O inca quer ornamentar templos de seus deuses em Cusco. Aqui, metais e pedras preciosas não possuem valor monetário, apenas espiritual. Durante a expedição, os escravos foram interrompidos por uma voz forte, cavernosa, similar a um trovão. E dizia: “Não é para vocês. Deus reserva estas riquezas para os que vêm de longe”. Apavorados, os índios fogem. O inca decide não enfrentar a montanha e a abandona. Antes, dá ao local o nome de Potojsi, que em aymará significa tormenta ou estrondo. Ela permanece rica e esquecida por mais 30 anos até que, casualmente, o índio Diego Huallpa a liberta do silêncio.


A história é recriada nas artes. Artistas indígenas e mestiços que pintavam para a corte espanhola introduziam em suas obras o dramatismo de sua história. Mesclavam as expressões andinas com os valores europeus. “Virgen del Cerro” é a arte de um pintor desconhecido do século XVIII. Sintetiza em sua iconografia a descoberta de Cerro Rico, a partir dos rastros do índio Huallpa.


A Virgen del Cerro (autor desconhecido)


A tela e quem nela pinta são objetos da colonização e, como tais, devem retratar o mundo sob a perspectiva européia. Por isso a personagem principal é Virgem Maria. Mas, há coisas que não se moldam ao toque vulgar do colonizador. Para os andinos, a Virgem é, na verdade, La Pachamama, a Mãe Terra. O artista pintou no manto da virgem a descoberta de Cerro Rico. O índio Huallpa, pastoreava suas llamas. Uma delas foge. Ao anoitecer, ele a encontra no topo do monte. Estava frio e Huallpa acende uma fogueira. Com o calor, veios de prata escorrem da montanha e revelam seu segredo para sua eterna sangria. O repentino enriquecimento de Huallpa, induz ambiciosos a seguirem seus rastros e pouco tempo depois o imperador espanhol, Carlos V, se apodera de Cerro Rico “a serviço de Deus, nosso Senhor, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Na parte inferior da obra, autoridades civis e religiosas agradecem a Deus pela riqueza do Cerro, à esquerda o Papa, um cardeal e um bispo; à direita o imperador Carlos V e um cavallheiro de Santiago. No meio deles, um círculo, Potosí, o centro da economia e do poder do mundo ou o mundo aos pés da riqueza de Cerro Rico. Assim, morre Potojsi, como a chamavam os aymarás e nasce Potosí, porque assim é que o espanhol prefere pronunciar.


Desde então, a população de Potosí cresce vertiginosamente e sua riqueza financia a Coroa espanhola à custa do extermínio indígena. A acumulação de capitais do Velho Mundo é banhada pelo sangue dos índios. Os espanhóis determinaram que as tribos deveriam “contribuir” com a exploração e seus caciques foram obrigados a convocar nas aldeias índios para serem recrutados na exploração de Cerro Rico. Eles nunca mais voltariam. Trabalhariam até a morte dentro dos fornos infernais que eram as minas de Cerro.


Hoje, caminhar por Potosí, é sentir na alma a ofensa pungente que a opulência dos palácios coloniais ostentam, tudo edificado por uma riqueza que apenas amaldiçoou seu povo. Pior. Ainda resta no interior da montanha o testemunho vivo. A prata deu lugar ao estanho. Nas galerias cavadas ao longo da montanha sobrevivem homens quem arranham os restos de uma herança amaldiçoada.


Mineirador de Cerro Rico

Por um salário que não ultrapassa 30 doláres mensais, eles são tragados pelas profundidades claustrofóbicas da montanha em um trabalho braçal, extenuante, desumano. Lá dentro, onde o simples ato de caminhar é penoso devido ao ar rarefeito e à temperatura insuportável de 45º, esses homens rastejam, martelam, içam, carregam e empurram toneladas. Quando saem, depois de 12 ou 14 horas de trabalho, não são mais do que espectros de si mesmos. O almoço se resume a mascar folhas e folhas de coca para anestesiar a fome e o cansaço. Antes de voltar às minas tomam álcool puro.

Lá fora, as crianças filhas de mineiros, vendem exemplares de pedras contendo estanho como souvenir a turistas. Lá fora, um grupo de turistas se diverte às gargalhadas tentando explodir a dinamite utilizada pelos mineiros. Lá fora, uma senhora indígena estende seus braços implorando por esmolas em um suplício desesperado: “Ajuda-me, ajuda-me”.


Antes da chegada dos espanhóis Cerro Rico estava coberta de arbustos. No cume predominava uma coloração marrom devido a abundância de paja brava, vegetação utilizada como alimento de llamas e alpacas e na construção das casas. Aos seus pés floresciam diversas espécies de plantas nativas com múltiplos usos. Esse manto vegetal foi mudando gradativamente à medida que a montanha engolia e matava os índios. Em Potosí se afirma que com o mineral que os espanhóis roubaram seria possível construir uma ponte de prata entre Potosí e Madri e outra ponte similar com os esqueletos dos índios mortos na exploração cruel desses 300 anos. Hoje, Cerro Rico é vermelha e oca. Pelo sangue derramado em suas entranhas os aymarás a chamaram de Wuila Ckolo, Cerro de Sangre.




17/12/08

La chola paceña


Ela é a representação emblemática da mescla entre a herança colonial espanhola e a milenária tradição aymará/quéchua, o auto-retratado da cidade de La Paz, a expressão mais significativa da mestiçagem boliviana, por fim, em um eufemismo exagerado, o símbolo do "encontro" entre o Velho e o Novo Mundo.


Durante o período colonial, a mulher criolla (descendente de espanhóis) aderiu à moda ibérica: uso de polleras (saia típica) e mantas elegantemente bordadas, botas, broches, jóias. Nos anos 40 e 50, as mulheres que representavam uma espécie de burguesia de origem aymará, adotaram essa moda ibérica. Atualmente, a chola paceña é um dos personagens permanentes da cena boliviana, especialmente em La Paz. Inevitavelmente, sua roupa recupera o castigo dos séculos passados, porém, no conjunto da obra, sobressai uma forma autenticamente aymará e um inegável toque urbano-mestiço.









Pero para ser una chola paceña hay que tener estilo y dinero. Um jogo com pollera, sombrero (chapéu), manta e sapatos, dos mais simples, custa por volta de 170 doláres. Sem considerar os adornos. E cada mulher deve ter uns três jogos para cada semana. É possível encontrar mantas de vicunhas que custam mais de 300 dólares. Eis o traje andino à la Armani.


Contudo, as cholas mais comuns são mulheres campesinas que migraram para os meios urbanos. É a mulher trabalhadora que aparece em todos os cenários. Pelas manhãs elas se dirigem ao comércio atravessando o trânsito caótico de La Paz, com o auayu (pano colorido, típico, bordado à mão) carregando seus filhos às costas ou o material de trabalho do dia. Em grandes obras de infra-estrutura, lá estão elas, operando maquinaria industrial, carregando tijolo, cavando buraco, servindo comida aos homens. E se por acaso, tiver um bloqueio na estrada e for necessário enfrentamento, e você for uma turista assustada, não se preocupe uma chola paceña estará lá para lhe prestar uma ajuda providencial. Nem será preciso llamar los hombres. A voz política de uma chola é muito nítida, é respeitada entre os seus. São comuns as manifestações políticas tendo como liderança ou maioria as cholas.







É essa chola, em especial, que se destaca. Se não podem comprar, confeccionam. Costuram seus trajes com lã de ovelha, agregam ao estilo desenhos indígenas e vários adornos como faziam os incas em grandes cerimônias. Pode não se vestir com o que há de mais sofisticado, mas tem sua elegância: suas tranças longas e negras, o andar apressado ao ritmo das polleras, a manta onde carrega
seus filhos ou material para o trabalho diário, sua disposição para o trabalho, sobretudo, sua expressão aguerrida, vigorosa, valiente.


Porém, em tempos de selvagem competição, o traje da chola paceña, tem outras mensagens implícitas. Marca uma posição econômica, é uma característica de ascensão social. Um maior número de pregas de uma pollera ou o comprimento do sombrero indica a categoria social da mulher. Há pouco tempo era proibido uma cholla paceña freqüentar determinados recintos. Segregação inexplicável, uma vez que 80% da população se considera indígena. A partir dos anos 80 e, especialmente, com a chegada de Evo Moralles na presidência, um índio aymará, houve uma revalorização da cultura dos povos originários.


Rezam as línguas agourentas que a moda cholla já chegou à Itália. A seqüência não é nenhum mistério. O toque Midas do capital, tudo transforma. Bom reviver, importante registrar, antes que cheguem os tempos em que estará gravada na memória coletiva apenas a imagem de modelos anoréxicas nas passarelas de Paris e Milão exibindo polleras e sombreros adaptados e...

...só reste a nostalgia.






Bolívia:

Precisa-se de um presidente para os que usam Pantalón


No referendo revogatório realizado em julho passado, o presidente Evo Morales foi ratificado com 67,41% dos votos e em 95 das 112 províncias do país. Isto significa que, a Bolívia não está dividida como descaradamente informa a imprensa burguesa, na verdade, querem dividí-la. Esclarecendo a terminologia da mídia golpista: não há tentativa de autonomia, há tentativa de separatismo; não há oposição e sim tentativa de golpe; não existem líderes cívicos ou dirigentes regionais e sim golpistas.


A herança oligárquica dos hidrocarburetos financiou a manutenção de uma elite branca e racista, representada essencialmente pelos departamentos de Beni, Pando, Tarija, Chuquisaca e Santa Cruz, que fazem parte da chamada media luna (oposição regional). Sob o lema da autonomia exigem, na verdade, um separatismo para defender seus privilégios, para manter intacta em seus quintais a herança oligárquica dos hidrocarburetos. Enquanto isso, campesinos e indígenas passaram os séculos vendendo seus braços sob o pagamento de uma sobrevivência humilhante para retirar suas próprias riquezas e entregá-las a uma burguesia parasitária. Transformaram a Bolívia em um campo de trabalhos forçados. Antes de Evo, não se lutava por “autonomia”.


Comum é andar pelas ruas de Sucre ou Santa Cruz e ver a típica aversão burguesa e o ódio racista contra los pueblos indígenas. Ainda mais agora que uno dellos está na presidência. Morales é um esquerdista, campesino, ex-dirigente cocalero, e pra piorar um índio aymará que rompeu com um século e meio de reinado criollo*. Um presidente cuja língua materna não é o espanhol, e governa para uma maioria que não se considera boliviana, mas sim quéchua e aymará, e identificadas mais com o Império Inca do que com a influência espanhola. Que fazer neste caso? Em uma mescla de desprezo e assombro só resta apelar para o terrorismo, massacre de indígenas, tudo é claro com o apoio da imprensa golpista internacional.


Lamentável, não poder trocar de povo. Está nas paredes:

Pueblo de mierda, Evo Cabrón, Evo, chola* de Chávez, Fundamentalista aymará, Tumbar al índio, Raza Maldita, Collas de Mierda , Viva Falange*

...ou mesmo em conversas


- Qué piensas de Evo?

- Hummm...- em um franzir enojado de lábios

- Es diferente, no? De los otros?

- Sí, pero, ello goberna para los campesinos. Seria mejor que gobernasse para todos. Los campesinos, son todos uns borrachos*. No son personas como yo, blancas e que usan pantalón*.


Criollo: descendente de espanhóis

Chola: prostituta índia, na denominação criolla

Collas: há uma rivalidade entre collas e cambas, essencialmente nos departamentos da media luna. nos outros departamentos não existe uma rivalidade tão nítida. Os collas representam os ocidentais, índios aymarás e quéchuas do Altiplano. Os cambas representam os orientais, uma minoria branca e rica, majoritariamente descendentes de espanhóis

Pantalón: neste contexto, vestimenta dos criollos

Falange: Um setor auto-proclamado de esquerda, acusado de traição aos ideais populares e de se inspirar na falange franquista.

Borrachos: Bêbados

Pantalón: neste contexto, vestimenta dos criollos





Evo Morales ao assumir a presidência perante
o Congresso da Nação e em cerimônia perante a memória dos seus antepassados, investido como chefe supremo dos indígenas dos Andes.



Inadmissível! Um insulto, índio sair do cartão-postal para a Presidência da República, e ainda mais ostentando vestimentas indígenas em atos oficais, a chompa, a chamara e o poncho, reafirmando o orgulho andino, exibindo uma identidade soberana perante a soberba dos ditos civilizados, mostrando que valores europeus e ternos não são universais.





29/09/08

Por fim, a redenção

Enquanto isso, El condor pasa


A imponente Cordilheira dos Andes atravessando toda a América do Sul, suas montanhas escarpadas e neves eternas impondo limites entre céu e terra, o vôo altivo do condor na perpétua solidão do Altiplano, campesinos mascando folha de coca, crianças andinas, culturas milenares, mistérios incaicos. A tal “Aventura América Latina” era, uma ligeira miragem, no mais, um ingênuo sonho beatnik, tão excêntrico a ponto de beirar o surreal. Não imaginava que esses sonhos é que eram reais e que a vida, até então, é que era apenas um pesadelo sombrio, uma miragem mórbida, una película de terror entediante. Espectro da realidade como em uma Caverna de Platão. Por fim, a mente se livrou das teias, o sangue corre vigoroso e os sentidos cobram vitalidade. Si, yo digo si, al sueño de la razón e de la redención. Pero, no es una redención ao juego cobarde de la vida. É a redenção à doida harmonia, à vertigem esfarrapada e extasiante de, finalmente, ser.

Inédita sensação: os passos que ouço são os meus.



03/09/08





Bah!!!!!!!!!!!!!!!


Já basta de me esconder atrás dessa angústia.



23/01/08

E eu que pensei que seria o último Basta!

O sacríficio dos mártires.

Este era o fio da meada do último Basta! deste blog supostamente jornalístico, autor de uma angústia dispensável, excêntrica e grotesca. Esboço inacabado e sempre vacilante.

As manchetes dos jornais marginais espalhados pelo quarto provocaram um enternecimento quase nobre. Relembravam os extraordinários. 20 de novembro, Consciência Negra, Zumbi. Em Sierra Maestra, as comemorações do aniversário da morte do “Fuser”, Ernesto Guevara Lynch de la Serna. Aniversário da Revolução Russa Proletária, bolchevismo, Lênin, Trotsky, Alexandra Colantai.

Uma doce vertigem parecia propiciar um suave concerto de palavras. Afinal, o sangue derramado dos mártires parece ornar com destemor até mesmo os mais covardes, os pseudo-revolucionários cuja esperança arrefece à medida que perdem, ao passo que desistem antes mesmo de tentar. Fracos! Fraca!

Mas, as palavras heréticas, como sempre, parecem fluir mais facilmente. As nobres ambições deram lugar a um pessimismo covarde e consequentemente a um horror auto-punitivo. O fato é que tenho feito meu lar em um ninho estranho. Na ânsia de viver empiricamente tenho me silenciado em um abismo soturno e assustador. Na busca pelo clímax da vida e por uma novidade de espiríto enveredei por um atalho e os atalhos são perigosos. Na cura pelo constante enternecimento optei pelo entorpecimento para depois oscilar entre a culpa e a expiação. Senti repulsa por este mundo insano que me obriga à resignação e a polidez, porque o que eu queria mesmo era o grito, a vigilância e não o sono. Em nome do pungentemente real acabei anestesiada e vazia. Me chamei de beat, dionisíaca, procurei desvairadamente as portas da percepção citadas por Blake e tão exploradas por Jim. Estive à beira. Descaradamente, admito que gostei da busca.

Escrever sobre meus mais ternos mártires, agora, seria enveredar por conjecturas baratas com o odor de farsa e transformar o antigo idealismo tão espontâneo em simples retórica. Seria ainda mais dolorido, seria impossível. Porém, uma indagação prática surgiu: Serei capaz de abandonar nobremente? Ou sou daqueles que prosseguem obstinadamente esperando que algo aconteça?


Sei apenas que devo começar por aceitar-me e isso inclui conviver com o bem e mal dentro de mim, sem sentir o horror punitivo e maniqueísta de cada vez que caio. Eu, que chamei minhas causas de perdidas, percebo agora que perdi o espanto e o ardor, mas não a ternura e a indignação, caso contrário eu já teria queimado. Porém, continuo aqui me depurando, me reconciliando comigo mesma e com o mundo, negando o beijo sedutor da renúncia. Às vezes e, inesperadamente, ainda sinto o sangue quente dos mártires me convidando a marchar junto. Com imprecisão trêmula, uma imperícia ingênua e o habitual calafrio no ventre, persisto. O Basta! não ecoou. Ou pelo menos, não convincentemente.

29/10/07

“Desaprendendo” o jornalismo entre Caros Amigos

1º Anti-Curso de jornalismo da Revista Caros Amigos


Na faculdade de jornalismo me apresentaram o célebre Manual de Redação. Nunca entendi direito esse troço. Logo no primeiro semestre os professores disseram que o tal livrinho era indispensável. Lá vai eu na biblioteca, inspecionar o dito cujo. Sozinha, no corredor da biblioteca não deu para evitar uma risadinha debochada. Tantos livros que me interessam comprar que, gastar dinheiro naquilo só poderia ser uma piada (de mau gosto). Na próxima aula os mestres contaram histórias de estagiários que passaram por maus bocados com seus editores por não saberem as regras do livro sagrado.

No Anti-Curso da Caros me ensinaram que o Manual de Redação tem por objetivo suprimir o autor. “Você vai estar tão condicionado às normas do Manual e o teu texto vai estar tão submetido às regras que no final das contas não interessa quem escreveu o texto”, afirma o Arbex.

Em outros cursos, cansei de ouvir aquela ladainha de “ingênuos” jornalistas alegando que é perfeitamente possível se trabalhar em um veículo empresarial, a mídia gorda e, ainda assim manter a sua autonomia. Enquanto escrevo este texto a Record exibe orgulhosa sua matéria do dia sobre o poderoso chefão, Edir Macedo. Paulo Henrique Amorim, sujeito distinto do jornalismo brasileiro, ao invés de fazer uma reportagem só faltou pedir a benção do santo homem. Nenhuma menção à famosa reportagem da Globo mostrando Edir Macedo tentando cooptar pastores da Igreja ensinando a “angariar” fundos dos fiéis: “Se você quiser ajudar, Deus vai te ajudar, se não quiser outro vai. Ou dá, ou desce”, ensina o abençoado. (pesquise no Youtube). A matéria mais parecia campanha de publicação do livro de Edir Macedo que, “coincidentemente” seria lançado no dia seguinte.

O que é mais grave, segundo Arbex, é que se essa fosse uma política da empresa seria até compreensível. “Afinal, sempre foi assim, se você quer mostrar a sua opinião funde o seu jornal”, diz ele fazendo alusão à frase de Assis Chateaubriand. Mas, segundo Arbex, “o mais grave é ver jornalistas fazendo papel de cães de guarda dos donos do jornal”. Que o diga Paulo Henrique Amorim.

Para os (ainda) iludidos, o Arbex nos dá outro exemplo. Conta que perguntou a um jornalista Global o seguinte: “Quando você se refere ao Osama Bin Laden, você diz: ‘o fundamentalista, terrorista, islâmico Bin Laden’. Por que quando você se refere ao Bush não diz: ‘o fundamentalista, protestante, terrorista George Bush?’. Isso tudo ele é. Ambos concordam. O jornalista respondeu: “Por que ele é um presidente eleito”. O Arbex retruca: “Pior ainda. No golpe da Venezuela vocês fizeram um brinde à deposição do Chàvez. Por que um presidente pode ser deposto e o outro não?”. Velha cara de interrogação do outro lado.

O fato é: a grande imprensa apresenta os fatos como se fossem retratos do mundo, “o que não está de acordo de acordo com eles é ideologia, é anti-jornalismo, é militância”, continua Arbex. Foram 6 milhões de votos a favor da reestatização da Vale do Rio Doce. Nenhuma linha sobre o assunto nos jornais da grande mídia.


Verena Class, jornalista da Agência Carta Maior e militante, é o reflexo do jornalismo que tanto me apaixona. Histórias de reportagens ao lado militantes em ocupações pelo MST, Via Campesina, índios, enfim, tudo o que representa a luta pelos direitos dos povos.

Mylton Severiano, o Miltaynho, me fez respirar aliviada ao dizer que o diploma de jornalismo é totalmente dispensável. “O diploma elitizou a profissão”, afirma ele. Na tal faculdade de jornalismo nunca me senti uma aspirante a jornalista, naquele espaço 99% classe média, me sentia uma “enferma”. O Miltaynho explica esse termo: “Tem a ver com a constatação: se o jornalismo é isso que a mídia gorda faz, então não sou jornalista, mas enfermo; ou, ao contrário, jornalista sou eu, e eles, enfermos.”

Em uma determinada época de suas carreiras, a maioria desses jornalistas serviram com desgosto a mesa da grande mídia. Por uma questão moral acabaram buscando outros rumos mais coerentes com os seus princípios. É o caso do Renato Pompeu. Mas, ao contrário do que possam pensar certos desconfiados, a maioria dos jornalistas presentes no Anti-Curso não tentaram desestimular os jovens jornalistas a ingressar em um trabalho na mídia empresarial. É uma oportunidade para experiência, formação profissional e pessoal. Não há discursos saudosistas de implicância com a nova geração. O próprio Renato Pompeu ainda hoje escreve para o Diário do Comércio, muito a contragosto, segundo ele para pagar as contas, mas ele diz que existem limites, assim como uma prostituta: “Algumas coisas eu até faço, mas beijo na boca não”, ele brinca.

Georges Bourdokan contou histórias sobre viagens em companhia de beduínos e escorpiões no deserto e sobre as dificuldades em se fazer jornalismo no Oriente Médio, especialmente em Israel. Ressaltou como o jornalismo feito sobre essa região aqui no Brasil é devassado. “É um jornalismo que chama os sem-terra de invasores e a invasão do Iraque pelas tropas anglo-estadunidenses de incursão”, protesta o jornalista.

O Anti-Curso também teve como convidados os jornalistas Cláudio Tognolli e Marcos Zibordi, mas infelizmente não pude comparecer neste dia. Com o bom humor e a inteligência do chargista Claudius este Anti-Curso se encerra.

O jornalismo é um humanismo.

Ali, entre Caros Amigos, relembrei isto.

Não me senti mais “enferma”.


12/10/07

O nome do filme é Anjos do Sol

Filme brasileiro, do diretor Rudi Lagemann, conta a saga da menina Maria, de doze anos, que vive no nordeste brasileiro e é vendida a um traficante de prostitutas. Depois de ser comprada em um leilão de meninas virgens, Maria é enviada para um prostíbulo localizado numa pequena cidade, vizinha a um garimpo, na floresta amazônica. Na primeira noite, depois de ter sido violentada por vários homens ela foge com a valente Inês. Capturadas, o castigo para Maria é um mês de cativeiro, acorrentada à cama enquanto uma infinidade de homens pratica sexo com ela. Para Inês o castigo é ser arrastada até a morte pela traseira de uma caminhonete. Após meses sofrendo abusos, Maria consegue fugir e atravessa o Brasil na carona de caminhões. Ao chegar ao seu novo destino, o Rio de Janeiro, ela não é mais Maria. É Isabela.


"Um anjo torto, desses que vivem na sombra"

É em carne viva que os dedos dão vazão à angústia em palavras inúteis
Afinal, o estremecimento pelo mundo precisa ser expurgado
Caso contrário, esse veneno mortal do mundo doente
Se espalhará como uma chaga e vai corroer tudo
Todo o triste resto

Suados, sujos, fechando o zíper e escancarando um sorriso perverso
Um e depois o outro, um e depois o outro, um e depois o outro
Com a sua voz infantil e embargada pelo choro ela diz:
“Eu tô machucada, eu to doída, eu tô...suja”
“Mãe, por que eu tenho que ir?”

São apenas meninas que choram e dão risadas com a plenitude da alma
Daquelas que ainda não conhecem as máscaras
Durante horas e horas mórbidas
Seu inocente corpo virginal
É violentado

Neste trópico abençoado por Deus os demônios castigam Anjos do Sol
Mundo insano e sujo que evacua tantos malditos
É este o mundo que criaste, meu Deus?
Para isto seus sete dias de trabalho?

Um Anjo foi corrompido, fartaram-se do seu corpo, cuspiram em sua alma,
Cortaram suas asas antes que aprendesse a voar neste céu desamparador
O que resta agora é um fantasma, convenientemente distante
Espectro vagando neste ar pútrido e perverso
Sempre machucada, doída e suja

Agora, só resta Isabela


24/09/07



Há algo de podre no Reino da Fundação Santo André

Uma Reitoria que nos últimos três anos aumenta em mais de 30% o valor das mensalidades.

Um Reitor que se beneficia de viagens ao exterior sem necessidade, motorista particular, dois seguranças, um cozinheiro, carro e combustível às custas do caixa da Fundação, cujos dados contábeis são abertos somente à própria Reitoria.

Uma Reitoria que fecha salas e turmas dos cursos de Geografia, História, Letras, Ciências Sociais, Matemática e Pedagogia, que debilitou os laboratórios de exatas a ponto de querer abrigar 100 alunos em uma sala que cabem 40.

Uma Reitoria que gasta R$4 milhões em 48 cargos de confiança totalmente dispensáveis por não possuírem qualquer justificativa técnica. Que possui em seu quadro cargos em comissão, indicados por políticos, consumindo R$2,5 milhões, que resultou em um déficit de aproximadamente R$350 mil no caixa da universidade.

Esse é a administração Odair Bermelho na Fundação Santo André, instituição que têm por tradição a qualidade de ensino há décadas na região do Grande ABC.

Ocupação e greve
O estopim para a ocupação da reitoria da FSA (13/09) e a greve em seguida (15/09) foram os fatores acima mencionados e, acima de tudo, um memorando da universidade comunicando a extinção de alguns cursos e o reajuste das mensalidades que em alguns cursos significaria um aumento de até 126%.

O caráter questionável desta administração ficou ainda mais evidente em nota divulgada após a ocupação, onde a reitoria afirmou não serem verdadeiras as informações sobre o aumento das mensalidades em até 126%. Uma maneira cínica e grotesca de ludibriar os estudantes e professores. A reitoria comunicou sim essa proposta de reajuste, inclusive através de um memorando assinado pelo pró-reitor de graduação. Documento este que está em posse dos alunos envolvidos nas manifestações.

Repressão
A ocupação da reitoria foi realizada de forma organizada e pacífica. “Foi uma demonstração de organização que ensinou os professores”, disse um professor presente na reunião com o prefeito de Santo André.
(vide gravação Rádio Movimento www.radiomovimento.net/site/especialFsa.htm). “Esses jovens estão sentindo as mesmas angústias que nós. Essa reitoria está tentando nos transformar em uma universidade que nós não somos. A FSA está perdendo a identidade”, alerta o professor.

Mesmo com uma atitude organizada e pacífica, a PM invadiu a reitoria, sem mandado judicial e com policiais sem identificação (vide as fotos no blog da ocupação - http://ocupacaofsa.blogspot.com). Os policiais usaram cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo, tiros de balas de borracha e agora alegam que tentaram negociações com os estudantes e como eles se recusaram “tiveram” que utilizar outros meios. Como se a invasão de uma manifestação pacífica, sem mandado judicial (leia-se“baixar o cassetete”), se justificasse simplesmente porque os estudantes se recusaram a se retirar em pleno ato de manifestação.

“Vocês vão apanhar que nem ladrões”, essas foram as palavras utilizados por policiais militares durante retirada violenta dos estudantes que haviam ocupada a reitoria. “Invadiram, agora agüentem”, diz um representante da reitoria, o advogado Domingos, em tom de ameaça aos que participaram da ocupação.

Estudantes e professores se reuniram com o prefeito de Santo André, João Avamileno, na semana passada (18/09) apresentado denúncias de irregularidades e exigindo providências. O prefeito diz estar ao lado da Universidade e não dos alunos ou da reitoria. “Violência gera violência. E a invasão da reitoria foi uma violência”. Pode-se dizer, sem medo de errar, que a violência neste caso é apenas uma questão de ponto de vista, Sr.Avamileno, pois a principal violência está sendo cometida contra a Fundação Santo André, através da precarização e destruição gradual dos recursos da universidade e não são os estudantes que estão fazendo isso.

O lado correto a ser escolhido é evidente. Mas, depende de bravura, ousadia, utopias e ao mesmo tempo convicções sinceras. É nesse molde que esse movimento chamado OCUPAÇÃO FSA se insere.
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27/09 (quinta): ATO PÚBLICO NA FUNDAÇÃO SANTO ANDRÉ -
Contando com a presença, além de todos os alunos em greve, de estudantes, entidades, etc, que apóiem a luta na F$A!
(em solidariedade aos estudantes e professores da FSA)


Diga à Reitoria


Diga ao Rei
Que é tempo de contestação
Que o tempo de fartura acabou
Que suas regalias terão fim
Que os que prosperam sob sua proteção também cairão


Diga ao Rei e aos outros Reis
Que 400 estavam nas fileiras
Que bichos, antes escondidos nos muros de Letras,
se juntarão agora aos que estão nos muros dos Números e das Bíos


Diga ao Rei
Que sangue jovem inocente foi derramado em seu chão,
em nosso chão
Que a força bruta de cassetetes deixaram marcas em nossos corpos,
antes dóceis
Mas não amputaram as idéias,
agora mais maduras


Diga ao Rei e aos outros Reis
Que o exército apenas está se formando
Que estamos prontos para cuspir em suas podres estruturas
Que este celeiro de idéias chamado universidade está cheio de idéias vermelhas


Diga ao Rei
Que não é com cassetete que se massacram idéias
Mas, são com idéias que reinos destes serão massacrados.

02/09/07

Bendito seja o MST

Sábado, 01 de setembro, Universidade Metodista. Dia de conhecer assentamento do MST. E segue a turma universitária rumo ao laboratório da vida real. No fundo do ônibus, estudantes de filosofia (ou filósofos estudantes), empolgados com o conhecimento, discutem de Nietzsche a Marx, de Foucault a Raul Seixas.

Entre conversas, risos e reflexões caladas, o ônibus segue sua viagem rumo à cidade de Guararema, interior de SP. Parada rápida na Escola Nacional Florestan Fernandes, obra inaugurada em 2006. A Escola carrega o nome do Mestre e no interior só se sente o espírito dele e de outros Mestres. “Camilo Vive”, diz o pôster vermelho pregado em uma das repúblicas, em homenagem ao primeiro padre guerrilheiro na América Latina.
Na sala de aula, janela com vista para a terra conquistada, um professor carismático arranca risadas de seus alunos entre um retrato de Marx e outro de Florestan Fernandes.

Mas, nem só do passado vive o homem. Por isso, a Escola também é decorada com fotos dos próprios sem-terra: camponesa com chapéu de palha e enxada na mão, cortador de cana em sua labuta no canavial, criança brincando com a terra, criança na escola.

Na parte externa da Escola, república para os estudantes e uma ponte de uma beleza agreste que só poderia mesmo dividir a área pertencente ao MST e o único pedaço de terra ocupado. Na terra: mudas plantadas. Por que, de terra ocupada pelo MST, só se produz isso: comida.

A viagem continua com os corações mais leves e realizados, ansiosos pela chegada ao assentamento. Impressionados. Emocionados. É assim que os olhos de quem é apaixonado por esse movimento ficam ao ver o que, de fato, significa esse movimento. Dá certo! É isso o que ficou implícito em cada canto desta Escola.

Ônibus de novo "comendo poeira" com destino ao assentamento, paisagem muito verde e cinza ao mesmo tempo. Casebres com homem da terra amansando cavalo, vaquejando gado e cuidando da plantação. No meio do desmatamento e do gado magro um outdoor que diz: “CONDOMÍNIO FECHADO, a vida que você sempre quis”. Ao redor de cada placa sempre terra pobre e cinza, mato queimado e cerca. Terra pobre para produção de alimento, rica para o cimento das mansões do homem do asfalto.

Chegamos ao assentamento e quem nos recebe é D.Maria, chapéu de palha na cabeça, andar manso, fala simpática, abraço aconchegante. Subimos a estradinha de terra rumo ao local onde a bandeira do MST estava fincada. Vermelha, flamejante, parecia gritar vitória ao balançar dos ventos.

No caminho, riacho com água limpa e refrescante, mata fechada, criança andando à cavalo na rua chamada “Revolução”, cada casinha com seu homem da terra e sua terra demarcada, ansiosa para ser trabalhada, cheiro do eucalipto plantado para gringo, que será substituido por comida. D.Maria aponta lá longe, os traços dos vales que determinam os limites das terras ocupadas pelo MST. É terra demais. Dá gosto de ver. A visão das várzeas e das plantações de arroz revigora os olhares.

Subindo morro, D.Maria vai respondendo às perguntas dos estudantes e suas lupas. Para cada pergunta, digamos surreal (pra dizer, no mínimo), D.Maria respondia com palavras sábias. “E as crianças pequenas de 1 ano, 2 anos...”. pergunta a figura. “Só brinca, vai fazer o que, né?”, responde D.Maria, com uma calma inexplicável. “Depois vai estudar, aqui no MST criança tem que estudar e não trabalhar”, complementa ela. Pergunto à D.Maria de onde ela é e como se envolveu com o MST.
“Sou baiana. Ah, cansei sabe? De ser explorada por patrão. Aí conheci a luta e não parei mais não. E continuo porque gosto, né? Creio nisso.” responde ela. Fito o rosto simpático dela e pergunto novamente “Gosta mesmo?” (só para ouvir de novo). “Gosto, ah se gosto”, responde ela sorrindo largamente.

Lá de cima do murro, ela grita para o vizinho:
“SIMBORA OCUPÁ?”
Os estudantes caem na risada e esperam a resposta:
“VÁ LÁ, QUE EU JÁ TÔ INDO? FEZ CAFÉÉÉ, D.MARIA?
Berra o vizinho do outro lado.
Mais risadas.

Concluindo a viagem, descansamos na casa do seu Domingos. Sentamos no sofá, tivemos breve aula de agronomia, tomamos a cachaça oferecida. “É sério?” perguntamos quando ele a oferece: “Tá aí, do lado do fogão. É da boa, pode tomar”, diz ele. Risadas satisfeitas. Esse é Seu Domingos. Recebendo 40 intrusos e com um sorriso largo estampado.

Agora, só restava descer a ladeira, com a alma revigorada e a paixão ainda mais exacerbada. E nunca, essa frase pareceu mais apropriada:

“Bendito seja o MST, se ele não existisse teríamos que inventá-lo”.


29/08/07

O texto era para ser mais jornalístico, com lead, mais curto, etc e tal, mas...não deu. Não gostei, ficou com a cara da Folha de São Paulo. Deixa pra lá, não sou jornalista mesmo. (ainda). Além do que, esse não foi um simples evento, representou o reascenso das utopias destas veias nervosas. Só dava para escrever com verdade.

Movimentos sociais e estudantes na luta contra o latifúndio do saber

Em minhas buscas por inspirações encontrei no meio do caminho um... caminho. Um discurso familiar, inconformado, disposto ao protesto e, incondicionalmente, a favor dos esquecidos.

Palestra na Fundação Santo André. O tema gritava: “Que universidade queremos?! O ensino superior em debate”. Era tudo o que este coração rebelde necessitava: vozes revolucionárias, mais do que isso, mentes brilhantes propondo (ou exigindo) um novo Brasil.

Encerrou na última sexta-feira a “Jornada Nacional em Defesa da Educação”. Trata-se de uma série de manifestações e debates, em universidades e espaços acadêmicos, reivindicando uma educação pública de qualidade. Os professores, Zago e Buzzeto representaram a campanha na Fundação Santo André através de uma palestra-debate. Na mesa, José Vitório Zago, professor da UNICAMP e membro do ANDES – SN (Associação Nacional dos Docentes no Ensino Superior – Sindicato Nacional) e Marcelo Buzzeto, professor da Fundação Santo André e membro da Coordenação Estadual do MST/SP.

O professor Zago, de adesivo do “Conlutas” colado no lado esquerdo do peito, inicia a palestra. Fala com precisão e a aquela calma de quem sabe o que está dizendo. Quando ele começa a falar sobre a universidade que o Conlutas quer para o Brasil, o tom de voz aumenta levemente e a eloqüência cativa os estudantes sedentos por vozes sábias e experientes. “Queremos para o Brasil uma universidade laica, pública, gratuita, de qualidade, democrática, autônoma didática e administrativamente e, principalmente, acessível à maioria da população”, enfatiza ele.

Relatou verdades inconvenientes: “substituição de professores”, principalmente mestres e doutores para redução de custos nas universidades; “apenas 11% dos jovens brasileiros entre 18 e 24 anos têm vaga no ensino superior"; em determinadas regiões o ensino privado abrange 90%; e, por fim, na defesa do nosso ensino um governo que de esquerda nada têm (e nunca teve), “uma vez que destina 2,5% do orçamento da União em educação e cerca 40% para o serviço da dívida” (rolagem da dívida interna, amortização e pagamentos).

Discursa na seqüência, Marcelo Buzzeto que, recentemente enfrentou a famosa masmorra, destinada não apenas aos homens maus, mas também aos rebeldes (uma prisão ilegal durante manifestação do MST, leia http://www.apropucsp.org.br/jornal/607_j02.htm). Esta mente fértil que aqui vos escreve, sempre fantasiando seus heróis, comicamente o imaginava um homem cabeludo, barba por fazer, ares de revolta, aparência nervosa e angustiada, talvez uma camiseta do Guevara. Coisas de uma mente altamente idealista (até demais). Mas, o que encontra é um homem calmo, eloqüente, simpático e, acima de tudo com um discurso sóbrio, equilibrado, sem a pressa insana típica do espiríto dos jovens.

Revela que, na avaliação do MST, a educação é parte de um processo de elevação do nível de consciência política da classe trabalhadora. Citou a ocupação do Largo da Faculdade de Direito de São Francisco ocorrida na madrugada anterior. A tropa de choque despejou os manifestantes presentes, em um procedimento totalmente irregular: sem liminar de despejo e às 2h30m, sendo que é permitido efetuar despejos somente a partir das 06hs. “Do ponto de vista, da própria lei burguesa o procedimento foi totalmente irregular”, protesta o professor. Mais uma arma da repressão preventiva realizada pela aliança entre o Governo do Estado de SP, a Prefeitura e o Poder Judiciário. O bom e velho noticiário televisivo, obviamente tratou o evento como crime.

O professor Buzzeto, conclui dizendo que a jornada deve desencadear um processo de mobilização, deve servir para refletir “sobre o que vamos conseguir acumular daqui pra frente, que signifique novas lutas, que não seja uma jornada de uma semana apenas. É uma conquista, uma vitória, mas é insuficiente”, ressalta o professor. A jornada deve adquirir um caráter de luta de massas, que não seja restrita ao universo acadêmico, aos movimentos sociais, “deve atingir o povo, os lares da periferia, que estão fora da universidade, fora dessa discussão que está em pauta”, conclui o professor.

Para os corajosos que chegaram ao fim do texto, só digo que este "fabulário feral do delírio cotidiano", falará menos das angústias e mais das lutas, menos do mal e mais da luta do bem contra o mal, pretenderá, de fato, fazer parte da "contra-mola" que resiste aos dentes afiados da engrenagem.

Agora, a angústia é outra!


11/08/07

O pai

Você sempre em agonia pelos males do mundo, sem perceber as cicatrizes da vida marcadas no corpo e na alma de alguém tão próximo de você. Sangue do seu sangue, mas cuja história você ignora. Resquício de uma rebeldia adolescente que se transformou em orgulho. Será? Sabe-se lá qual seria a análise freudiana pertinente ao caso. O fato é que você perdeu tanto que agora todos os motivos parecem estupidamente banais, claramente mesquinhos, definitivamente medíocres.

Em um momento inusitado, ele conta a sua história e você apenas ouve, enquanto sofre calada a dor de um arrependimento estéril. Relata fatos únicos de sua existência. Um filho da roça que andava descalço pelo sertão baiano enquanto seu pai, um rico fazendeiro, cobria de plantações e gado toda a região. “Sabe o que é andar descalço, aos farrapos, em uma terra cujo dono é seu pai?” A humilhação, a vergonha de ser rejeitado sem saber por quê.

A criança se transformou em um adulto que da vida só conhecia o cabo da enxada. Dos amigos, todos miseráveis também, lembra-se das cadeiras nas calçadas em frente aos botecos e das apostas para ver quem bebia mais. Treze anos e um rosto desbotado, olhar sem brilho, calos de um velho, a alma mutilada. A aposta era para ver quem se entorpeceria até esquecer do mundo, de si mesmo e de quem nunca poderia ser.

Quando a seca expulsou o pai das terras, ele veio para o asfalto derramar seu suor. Passou fome, sentiu-se órfão, aqui ele era apenas mais um filho da seca, sem cheiro e nem sabor. Aprendeu uma profissão e se juntou ao “exército industrial de reserva” do capitalismo selvagem, da humanidade fria e animalesca. Depois amou, construiu família e viu os filhos crescerem, se afastarem a ponto de o olharem como um estranho. Das frustrações, a maior delas, é não poder pagar a faculdade de jornalismo da filha rebelde. Ele sempre quis que ela “fosse alguém”. Que fosse o que quisesse ser.

Você se rasgando em angústias pelas dores do mundo sem perceber que tudo o que você ama, defende e protesta estava representado no pai. “O social” que você tanto buscou está aí, esteve aí a sua vida toda e você ignorou. A história de vida do pai é parte do grande retrato da tragédia humana. Inicia-se quando é abandonado pelos seus e continua enquanto é abandonado pela pátria mãe gentil, pela humanidade triste e covarde.

Finalmente você entende o pai. E ele parece te entender. A semelhança entre os angustiados é nítida, mas até hoje nenhum dos dois se deu conta. A diferença é que enquanto você grita uma voz rouca, o pai chora calado e sozinho.


22/07/07

Senhores de engenho, donos dos corpos, senhores das almas


“Quantas vezes tenho vontade de rasgar o peito e estourar o crânio vendo que somos tão pouca coisa uns para os outros”. (Goethe)


A angustiada não costuma ouvir rádio no computador. Exceto quando se trata do bom e velho rock and roll. Uma notícia em um site conhecido chamou sua atenção. A matéria também estava escrita, mas por algum motivo ela preferiu ouvi-la. Falava sobre trabalho escravo. A voz fria do locutor denunciava calmamente os números de um relatório sobre “o horror”. À medida que as estatísticas eram calmamente relatadas, ela sentia que o quarto ficava pequeno e gelado. As paredes pareciam se comprimir a ponto de sufocá-la. Sentia o peito apertado, o coração oprimido. Ela olha fixamente para o um ponto qualquer, sente as lágrimas queimarem o rosto, o corpo estremecer. Ela engole seco, segura a respiração e imagina o cenário deste teatro de horrores.

Seria uma fazenda? Uma fábrica instalada em obscuros guetos de uma metrópole qualquer? Haveria um capataz com botas longas e uma espingarda ameaçando criaturas cinzas de olhos vazios e manchados? E o mandante? Seria um homem de caminhar lento, olhar intimidante, ar presunçoso, que espalha sua gordura burguesa em uma rede ou mesa de escritório, enquanto decreta as sentenças de seus cativos?

E os escravos? (sim, é isso mesmo: ESCRAVOS). Como arrastam seus corpos nesta existência triste? Com convivem com suas almas mutiladas, dia após dia? Como suportam viver em uma humanidade repugnante como essa? Que faz isso com eles, e assiste eles e escreve sobre eles? Esse nojo, essa náusea e cansaço da vida não os fazem vomitar até que não haja mais dor?

Ela tem medo. Medo de que essa seja apenas mais uma notícia e esse mais um texto. E ela sabe que será. Medo de acordar no dia seguinte e seguir sua vida enquanto eles continuam lá. Como fazer as tarefas diárias, como acordar, trabalhar, ou simplesmente falar, sabendo que isso aconteceu, que está acontecendo?

Inevitavelmente, o dia seguinte virá. Ela sabe. E sabe, que as malditas tarefas diárias, o entorpecimento cotidiano, em especial um trabalho inútil, irão fazê-la esquecer-se dos ESCRAVOS e ser engolida pela mesquinhez do cotidiano, pela apologia ao trivial. Tudo isso a mando dos senhores de engenho “civilizados”. Lembra-se do pensamento marxista. Sabe que “é da empresa privada sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário”.

Sabe também que é exatamente igual ao resto dos repugnantes porque ouviu sobre “o horror” e seguiu sua vida. E escreveu sobre isso.

Mas, por quê? Por que ela continua escrevendo?


07/07/07

"Editoria Social" em crise de identidade

O tal blog me pergunta: “O que vc quer de mim? Me dá o nome de Editoria Social e de Social não escreve nada? Preciso de uma identidade”. Eu respondo:

Meu amigo, só posso dizer que está f.
Falta inspiração, falta otimismo. Otimismo é essencial porque ninguém quer ler um texto amargo. Escritores amargos sempre foram rejeitados pela maioria dos leitores, exceto por uma minoria amarga e antipática que debruça suas angústias sobre as linhas desses escritores “malditos”. Bukowski , o eterno marginal, era um chato de galocha: detestava todos os escritores, os leitores, enfim o mundo inteiro. Se fãs batiam à sua porta pedindo autógrafos eles os expulsava sobre uma enxurrada de palavrões. Chamava a todos “os felizes” de fudidos e a única coisa que era digna de seus elogios eram os cavalos e seu uísque.

Niestzshe era outro chato. Irritantemente provocativo. Uma honestidade intelectual que denuncia a mesquinhez e a trapaça ocultas em nossos valores mais elevados. Uma verdade incômoda sobre o ser humano. E para te colocar ainda mais pra baixo afirma que “Deus está morto” e que o socialismo é uma mentira maravilhosa.

Escritores complicados (ou que complicam a vida) também são chatos. Aqueles, sabe? Cheio de dramas e crises existenciais. O Sartre, por exemplo. Deveria estar escrito no prefácio dos livros dele o seguinte: “Ler Sartre pode causar danos colaterais. Além de fortes dores de cabeça e náuseas, a leitura em excesso pode te levar a um inferno psicológico irreversível”.

Textos pessimistas são chatos, querem te colocar pra baixo e a vida é tão bela. Não que eu esteja me comparando a esses escritores, são só constatações.

O que eu quero te dizer, amigo blog, é que esta “pena” só consegue expressar suas angústias neste momento. E aviso: elas são chatas. Eu estou chata. E antipática. E mau-humorada. Portanto, quando as paixões e os ideais retornarem a essas veias os textos irão vomitar linhas coerentes com o tal título. Até lá, sinto lhe informar que: não, você não tem identidade. Aliás, está muito longe disso. Você é, como diria Raul Seixas, uma metamorfose ambulante, uma aberração virtual.


01/07/07

Perfil
Dogival Vieira:
um grito em defesa da igualdade racial

Palestra sobre diversidade étnica. Auditório lotado. As pessoas conversam e aguardam o próximo palestrante, mas quando ele chega ao microfone e começa a falar o silêncio é absoluto, a atenção é focalizada nele e todos concentrados querem ouvir sua oratória. O personagem em questão é o jornalista, advogado, poeta e militante Dogival Vieira, membro da ONG ABC Sem Racismo e responsável pela Afropress – Agência Afroétnica de Notícias. Em entrevista, ele expõe detalhes da sua vida e trajetória até a militância.

Sergipano, da cidade de Salgado, Dogival é filho de um vaqueiro e repentista de cordel, e de uma dona de casa, trabalhadora da roça, ambos muito pobres e humildes, semi-analfabetos. Até os 12 anos, Dogival viveu em Salgado onde trabalhava na roça e também como oleiro. Quando tinha 12 anos, o pai resolveu tentar a sorte em São Paulo, enquanto isso, a família ficou em Salgado sobrevivendo de uma pequena agricultura nos fundos de casa. Um ano e meio depois, o pai conseguiu trabalho na Prefeitura de Cubatão, e foi buscar a família. Inicia-se uma outra etapa, agora em S. Paulo, na cidade de Cubatão, morando numa casinha muito pobre, no bairro do Jardim Casqueiro.

Leitura e jornalismo
Terminado o ensino médio, Dogival presta vestibular para a Faculdade de Comunicação de Santos, onde cursa jornalismo. A opção pela Faculdade de Comunicação vem, inicialmente do apreço pela leitura: “Comecei a trabalhar como guardinha mirim na Prefeitura de Cubatão, trabalhando na Biblioteca Municipal. Imagine, o que eu fazia, sempre que havia oportunidade, lia, lia muito. Li quase todos os livros da Biblioteca, de romance, especialmente. Da leitura ao gosto de escrever foi um passo, é um desdobramento natural” explica o jornalista. Além disso, a visão idealista do profissional de jornalismo contribuiu para a escolha: “quando a gente era jovem, no meu tempo, imaginava, o jornalista como uma espécie de herói de capa e espada, cobrindo guerras, escrevendo do front. Eu gostava dessa idéia”.

Militância
“A militância começou na Faculdade de Comunicação, onde fui líder estudantil. Foi lá que aprendi o significado da militância política, (...) foi o período que antecedeu a abertura democrática, os tempos da abertura, da anistia, da volta de grandes figuras como Brizola, Gabeira, o retorno dos cassados. Vivi esse tempo, já como repórter do jornal em que trabalhava, ainda cursando a faculdade”.
Depois disso, Dogival foi vereador de Cubatão, também assessor de comunicação do Ministério da Educação, além de secretário particular adjunto do ministro da Educação, depois consultor da Unesco, onde teve a oportunidade de participar da implementação do Programa Bolsa Escola, hoje Bolsa Família, e do Programa Diversidade na Universidade, do qual foi o primeiro coordenador responsável pela estruturação inclusive institucional do Programa.

Igualdade Racial
O engajamento na luta pela igualdade racial e contra o racismo aconteceu, no período pós 2002, quando Dogival passa a coordenar o Projeto Diversidade na Universidade do Ministério da Educação, na condição de consultor da UNESCO. “Tive a consciência de que a questão racial era elemento estruturante da desigualdade social no Brasil(...) entendi o processo de desconstrução da identidade negra que o racismo opera”, afirma o militante. É nesse contexto que surge a ONG ABC sem Racismo, que tem como objetivo sensibilizar e mobilizar a sociedade para a denúncia contra a discriminação racial. Mas também advoga uma atitude pró-ativa, com projetos nas áreas da Educação, do Trabalho, dos Direitos Humanos, da Mídia, onde criamos a Afropress – Agência Afroétnica de Notícias -, que é a primeira Agência de Notícias no Brasil, com foco na temática racial e étnica.

Perspectivas
Dogival é otimista quando se fala na luta pela igualdade racial: “O racismo causa um profundo prejuízo aos negros, a sociedade e ao Brasil, como um todo. Somos a metade do país, 49% da população brasileira e não podemos mais aceitar a condição da invisibilidade e ou da subalternidade que nos reservam. Temos direitos, e vamos continuar a luta pelos nossos direitos, por igualdade racial e cidadania. Não podemos aceitar a condição de cidadãos de segunda classe, de cidadãos pela metade, se somos metade do país”.

*Matéria produzida para a faculdade.


30/05/07

Entre o jornalismo e o social

Exercer o jornalismo. Esse sempre foi o meu objetivo. O problema é que desisti da tal faculdade de comunicação social. E agora, José? A veia jornalística está aqui, pulsando, mas não tenho o diploma, o glorioso aval de uma instituição privada (ou pública) elitista para me conceder o grande privilégio de ser jornalista.

Felizmente, para vocês, não ficarei despejando teorias e críticas rancorosas sobre o nosso sistema educacional. Esse discurso é velho e sinceramente já me cansou. Serei jornalista. Essa voz inquietante está, ainda, viva demais para se calar e se guardar em um canto escuro da minha consciência. A paixão pela profissão não permite um recolhimento silencioso e frustrado.

Por isso, aqui estou eu, mesclando jornalismo e ciências sociais. Esse era o plano, desde o inicio. E se a universidade forma técnicos em comunicação, paciência, eu quero ser jornalista e fundamentar o meu trabalho na editoria social. Por isso, a escolha pela faculdade de Ciências Sociais. Tenho a necessidade involuntária de um saber que dialogue comigo mesma, que me faça refletir, mudar, sentir. Um saber inebriante, que me tire da burocracia apática de ensinamentos voltados para a técnica em detrimento da humanística e me faça sentir viva, em contato com a realidade.Posso estar novamente enganada, tudo é possível. Só sei que por enquanto vou dando oxigênio à minha veia jornalística através deste blog e de muita literatura (dita) subversiva.